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Lipídios-ano?! Novo fator de risco para DAC

Recente estudo publicado na edição online da renomada revista Circulation evidenciou um novo e importante fator de risco para doença coronariana. Segundo este estudo, adultos com 55 anos com hiperlipidemia prolongada, em níveis moderadamente elevados (colesterol não-HDL ≥ 160) quando jovens adultos, apresentam maior risco de desenvolver doença arterial coronariana aos 70 anos, quando comparados com pessoas de mesma idade que não apresentam esses níveis elevados.

A pesquisa baseada no Framingham Offspring Cohort demonstrou também que há um efeito cumulativo da hiperlipidemia, que quanto mais tempo o paciente se manter hiperlipidêmico maior seu risco de desenvolver doença coronariana (DAC). Assim, décadas de exposição ao que se considera hipercolesterolemia discreta ou moderada está associada a um aumento significativo do risco relativo de coronariopatia:

  • 4,4% dos adultos de meia-idade (55 anos) sem hiperlipidemia nos últimos 11-20 anos desenvolveram DAC;
  • 8,1% dos adultos de meia-idade (55 anos) com hiperlipidemia nos últimos 1-10 anos desenvolveram DAC;
  • 16,5% dos adultos de meia-idade (55 anos) com hiperlipidemia nos últimos 11-20 anos desenvolveram DAC.

A plausibilidade biológica de tal constatação é clara. A aterosclerose se desenvolve lentamente ao longo de anos, e seus efeitos prolongados até então estavam mal definidos.

Embora o resultado não nos impressione, pela primeira vez estamos olhando para a hiperlipidemia como um problema a ser tratado desde a juventude, demonstrando que o escore de risco de Framingham (utilizado pelo Guideline da ACC/AHA para indicação terapêutica) é incapaz de indicar tratamento para esta população, visto que o mesmo analisa o risco em 10 anos, de maneira pontual, não levando em consideração o tempo prolongado de exposição a hiperlipidemia. Assim, da mesma maneira que se indica tratamento em pacientes com história familiar de doença cardiovascular ou escore de cálcio aumentado (independente do Framingham Score), deveríamos considerar o tempo de exposição a hiperlipidemia em adultos jovens para estratificação do risco dos mesmos aos 55 anos.

No entanto, assim como não tínhamos dados, até então, do desfecho da hiperlipidemia prolongada em adultos jovens, também não temos dados sobre o uso prolongado de estatinas (a partir da 3ª ou 4ª década de vida), o que reforça que dieta e exercício físico são a primeira linha para o controle deste fator de risco, e a indicação de tratamento farmacológico precoce carece de dados.

Um escore objetivo de avaliação e uma indicação clara de terapêutica ainda não estão claros, porém este estudo inaugura uma nova óptica de entendimento do processo de aterosclerose e promete gerar muitas mudanças no manejo clínico da hiperlipidemia, especialmente em pacientes de meia-idade. Em breve, poderemos estar calculando o produto “lipídios-ano” para o risco cardiovascular, assim como hoje calculamos “maços-ano” para risco de pneumopatia e câncer de pulmão. Vale ficar ligado.

Artigo original: http://circ.ahajournals.org/content/early/2015/01/15/CIRCULATIONAHA.114.012477.full.pdf+html

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