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Ética, crença e vida: Dilemas da profissão médica

Os médicos se deparam com muitas decisões que podem vir a ser dolorosas durante suas carreiras. Muitas situações envolvem prolongar ou ter que por um fim a vida de um paciente. Isso acaba gerando debates entre esses profissionais, que podem ter valores e princípios diferentes um dos outros. O Medscape realizou uma pesquisa com mais de 21 mil médicos, que disseram como se colocam quando encontram esses problemas críticos dentro da medicina. Os entrevistados foram mais de 17 mil médicos americanos e 4 mil europeus.

O primeiro tema posto em pauta é “physician-assisted suicide” (legal em alguns estados do Estados Unidos) – no qual, o paciente, e não o médico, administra a medicação letal com supervisão e consentimento do médico (não pode ser tido como o mesmo que a eutanásia). O tema ganhou destaque público com o caso de uma paciente americana de 29 anos com câncer cerebral terminal que escolheu dar um fim a sua vida. De 2010 a 2014, houve um aumento de 8% no número de médicos que apoiam tal ato, em geral 54% deles apoiam, enquanto 15% dizem que depende da situação. Alguns alegam que doenças letais podem acabar com a dignidade do ser humano, com a certeza de que a doença é incurável e terminal, eles não têm dúvidas quanto a ajudar o paciente em sua decisão de dar um fim à vida.

Quando comparados com a Europa os números caem, 41% dos médicos europeus responderam que o physician-assisted suicide deve ser permitido. Vale lembrar que muitos profissionais foram entrevistados e cada um tem sua crença, religião e valores, mas no geral uma grande parte deles afirma que a ajuda do médico ao paciente acabar com sua vida pode ser aceita se a extensão dessa vida for gerar um sofrimento desnecessário para o enfermo. Enquanto isso, no Brasil, tanto a eutanásia como o suicídio assistido são considerados crimes, embora não constem especificamente no Código Penal podem ser enquadrados em artigos de homicídio simples ou qualificado e participação em suicídio. Essa divergência de opiniões pode ter como motivo a cultura da região, mas o que não se pode esquecer é que o suicídio assistido é uma escolha do paciente, que é o foco principal dentro de um tratamento. O Brasil ainda não tem uma lei que fale especificamente desse tipo de caso – que, de fato, é delicado -, mas com os assuntos cada vez mais globalizados e casos cada vez mais visíveis mundialmente, o tema poderia ao menos ser posto em pauta para se conhecer a opinião dos médicos brasileiros.

A próxima pergunta feita aos médicos é se eles dariam uma terapia de sustentação à vida (life-sustaining therapy) se eles mesmos considerassem essa medida inútil a tal paciente. 46% deles responderam que depende da situação: muitas das suas respostas mostraram uma certa simpatia e preocupação pela família do enfermo, e isso influencia nas decisões do profissional. “Se o paciente viver alguns meses a mais e sua família interagir com ele de uma maneira positiva, e no fim ele ainda morrer por conta da doença, de qualquer modo a terapia não terá sido inútil”, alegou um dos entrevistados. “Se isso for fazer algum familiar se sentir melhor e ter certeza de que tudo que poderia ser feito, foi feito… Eu recomendaria”, afirmou outro. Mas ainda sim, 35% dos médicos entrevistados responderam que não aplicariam a terapia se considerassem que não iria fazer diferença.

Outro assunto que gera conflitos é quando o médico sente que pode fazer o paciente se recuperar, mas para isso precisa ir contra os desejos dos familiares. 50% responderam que esse é um caso que depende da situação para ser analisado, 28% responderam que não fariam e 22% que fariam se fosse necessário. Esses conflitos com famílias de pacientes não são incomuns e, às vezes, o direito legal não está do lado do profissional, com isso os médicos podem enfrentar uma situação desagradável se se sentirem fortemente contra as diretivas da família. Além do que, pode vir a ocorrer também, que além da opinião do médico, a família seja contra o querer do próprio paciente. Nesses casos o médico acaba tendo que exercer múltiplas funções para deixar todos a par da situação e fazer com que seja chegado a um consenso entre a linha do desejo do paciente e a vontade da família.

“Você realizaria um aborto se isso fosse contra as suas crenças pessoais?”, a essa pergunta polemica, houve uma maior dissidência entre sim e não, – o aborto é legal em todos os estados dos Estados Unidos – 44% dos médicos responderam que sim e 41% que não. Essa é uma questão que põe em evidência: qual crença que é mais importante? A do paciente ou a do médico? Muitos dizem que as crenças dos médicos não podem ser aplicadas aos pacientes, enquanto outros contestam que a prática não deve ser feita em situação alguma. Essa é uma questão delicada e ainda proibida no Brasil, assim como em muitos países, a questão é exatamente a crença de milhares de pessoas (ainda mais se tratando do Brasil), e o dilema que envolve o poder do médico sobre proibir vidas de nascer e o querer da mãe, que pode ter muitos motivos para querer fazer tal escolha.

Os médicos também foram questionados se esconderiam informações sobre diagnósticos terminais de seus pacientes para amenizar suas atitudes. Sobre isso, 76% dos médicos disseram que não, que se manteriam honestos não importa qual a reação do paciente. Embora alguns tenham dito que, se omitir informações pode ajudar o tratamento não deixando o paciente perder a esperança, eles fariam, a maioria afirma que a honestidade é um ponto indispensável na prática médica, é um dos mais importantes valores.

Quando comparado com a Europa, esse tema tem uma notável diferença. 56% dos médicos europeus disseram que, se necessário, esconderiam informações sobre o grave quadro do paciente. Essa diferença sugere que existe uma relação mais paternal entre médico e paciente entre os europeus, que tentam amenizar o quadro fazendo o enfermo manter as esperanças.

Ainda dentro do mesmo assunto, foi perguntado aos médicos se eles omitiriam informações a pedidos dos familiares do enfermo. 39% responderam que não e 49% que depende da situação. Isso acontece com bastante frequência e por diversos motivos. Às vezes, o pedido faz sentido, mas muitas outras vezes os médicos ficam preocupados com os reais motivos dos familiares para fazerem tais pedidos.

No Brasil, há uma certa relutância em dar o diagnóstico ao paciente, em geral, os médicos preferem deixar para os familiares realizarem esse trabalho. Um caso recente de um paciente com Alzheimer no Brasil foi relatado, ele vive com a doença há 3 anos e não sabe que a possui, a família preferiu não contar. Os médicos que analisaram o caso relataram que em certos casos, com um diagnóstico precoce da doença, é bom o paciente estar ciente para que ele mesmo possa tomar decisões sobre seu futuro. Aparentemente a relação de médico e paciente no Brasil se equipara a da Europa, os profissionais assumem uma postura mais paternal e acabam deixando esse tipo de decisão para os familiares, que, na maioria dos casos, decidem o que dizem ser melhor para o paciente.

Outro tema que foi posto em pauta, diz respeito a dor do paciente e o que o médico faria ou não para ajuda-lo nesse momento. Na maior parte dos casos, os médicos responderam que fariam de tudo para ajudar o enfermo na hora da dor. 76% responderam que não iriam deixar de amenizar a dor por medo do paciente vir a ser um viciado, por mais que o número tenha caído em relação a 2010, quando 84% responderam que não fariam isso, ainda é um número considerável. 69% dos profissionais entrevistados disseram que não negariam um tratamento mais eficiente a um paciente se ele não puder pagar por isso, 22% disseram que depende da situação, o pagamento não pode ser totalmente dispensado numa situação como essa e muitos médicos alegaram que não podem arcar com as despesas do tratamento dos enfermos.

Por fim, os médicos foram questionados sobre os piores dilemas éticos que já passaram em suas carreiras e muitos deles notaram que ainda se incomodavam com o fato e que, talvez, hoje agiriam diferente. Outros já tinham o sentimento de terem feito a coisa certa. Muitos dos que alegaram ainda se sentirem incomodados disseram que talvez pudessem ter feito algo a mais pelo paciente, como aliviar sua dor, contar algo que a família pedia para ser omitido, ou simplesmente fazer o que ele estava pedindo.

A questão ética dentro da medicina acaba tendo uma linha muito tênue entre o que cada um acredita, mas deve-se lembrar que o tratamento é feito, a cima de tudo, para o bem-estar e melhor desfecho do quadro do paciente. Qualquer outra coisa pode vir em segundo lugar.

Referências:

http://www.medscape.com/features/slideshow/public/ethics2014-part1#20

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/03/1600463-familias-decidem-ocultar-de-doente-que-ele-tem-alzheimer.shtml

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