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Medicina proativa

O convidado do mês de outubro é o Dr. Daniel Branco.

Daniel Branco é fundador do Medicinia, médico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Neurologista, Doutor em Neurociências pela PUCRS, Pós-Doutor em Planejamento Neurocirúrgico pela Harvard Medical School e MBA pela Wharton School of Business.

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Como pessoa, eu nunca adotei uma postura de vida reativa, esperando que os problemas ocorressem para só então pensar em como resolver. Eu sempre fui uma pessoa proativa, do tipo que percebe de longe o que pode dar errado e toma as medidas necessárias para evitar um desfecho ruim. Faço isso em diversas frentes da minha vida. Mas analisando como eu trabalhava como médico (lembrando do período em que eu ainda praticava no consultório) e como o sistema de saúde ainda funciona nos dias de hoje (observando a prática médica de hospitais, operadoras de planos de saúde e colegas de profissão), eu me surpreendo ao perceber como a saúde é, no final das contas, reativa.

Claramente, nenhum médico sai pela rua perguntando para quem passa “você tem algum problema de saúde?”. Isso seria o cúmulo da proatividade e ainda seria provavelmente considerado um mercantilismo da profissão. Mas muito mais poderia ser feitos por nós, médicos, instituições e profissionais de saúde. Só que a gente não faz. Quando um paciente deixa um consultório médico após uma consulta, a maior chance é que esse paciente nunca mais irá ouvir falar daquele médico, a não ser que o paciente proativamente agende uma nova consulta. Não rola nem um “Tá melhor? Tomou o seu o remédio? Fez o exame? Mas por que não voltou?”. Nada disso acontece. Como profssionais de saúde, somos absolutamente reativos. Dedicamos 100% da nosso tempo e atenção ao paciente que está na nossa frente, que procurou ativamente pela nossa ajuda.

Infelizmente, o que ocorre é que fomos educados desde a faculdade para sermos reativos. O paciente não se chama “paciente” à toa; afinal é ele (ou ela) que precisa vir atrás da gente e aguardar pacientemente. Médico ir atrás do paciente? Jamais! Chega a ser uma questão de honra, de orgulho profissional. Mas por trás, há um fundo prático também. É simplesmente muito difícil para um profissional de saúde manter contato continuado com seus pacientes. Além disso, o paciente que está ali na hora, na frente do médico, sem dúvida merece 100% de sua atenção.

Por outro lado, a sociedade está mudando. As pessoas querem resposta na hora, querem eficiência e, principalmente, já não são quase nada pacientes. E o mesmo vale para a sua saúde. Se elas têm uma dúvida sobre sua própria saúde, elas querem resolver na hora. Elas não querem mais esperar até a próxima consulta. Pro bem ou pro mal, esta é uma mudança que veio pra ficar. Estão aí as interações médico-paciente por Whatsapp, que não me deixam mentir, quase sempre iniciadas pelo paciente.

Mas será que isso é necessariamente ruim? Não faria muito mais sentido, de fato, que os pacientes (agora já nem tanto) pudessem ser proativamente acompanhados ao longo de sua vida por aqueles profissionais e instituições de saúde nos quais esses pacientes depositam toda sua confiança? Em outras palavras, será que faz mesmo sentido manter o paradigma do atendimento em saúde restrito apenas a interações presenciais esporádicas, que ocorrem apenas quando o paciente ativamente procura ajuda? Afinal, como que o paciente sabe que algum problema pode estar se agravando, principalmente quando muitos dos problemas de saúde são absolutamente assintomáticos? Não estaria mesmo na hora de adotarmos uma medicinia proativa, continuada, baseada em interações médico-paciente muito mais frequentes?

Eu pessoalmente acredito que sim. Acredito que a saúde, quase que por definição, requer atenção constante, continuada. O fato de interagirmos com nossos pacientes apenas esporadicamente é muito mais deocrrência da nossa antiga falta de tecnologia do que do fato de esta ser a melhor forma de oferecer cuidados em saúde. E em grande medida se deve também ao modelo de remuneração, que é baseado no papel do médico como um “consultor” (que até trabalha num “consultório”), que simplesmente explica para o paciente o que ele deve fazer e assume que o paciente, em primeiro lugar, entendeu o que foi explicado e, em segundo lugar, tem a motivação e a disciplina necessária para executar o que foi orientado.

Não, médicos não são meros consultores. Médicos são responsáveis por vidas, pela saúde dos seus pacientes. E felizmente hoje temos a tecnolgia que nos permite acompanhar nossos pacientes de perto, mesmo que à distância, com qualidade e eficiência, de forma praticamente automática. E nisso, eu acredito. Eu acredito numa medicina proativa, com médicos e pacientes trabalhando juntos para vencer grandes barreiras de aderência e atingir grandes objetivos de tratamento.

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