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Efeito fim de semana: Plantonistas inocentados

250-BANNER5Estudos recém-publicados colocam em “cheque” a tese de que o aumento na mortalidade de pacientes nos fins de semana se deve a menor qualificação profissional e ausência de staff qualificado neste período.

Estudo de coorte prospectivo divulgado pela The Lancet, que analisou o atendimento de acidentes vasculares, não evidenciou aumento de mortalidade no fim de semana. No entanto, revelou inconsistências na qualidade do cuidado durante toda a semana, variando em todos os dias da semana e sofrendo influência, até mesmo, da hora do dia ou noite.

Por exemplo, pacientes admitidos pela manhã tiveram maior probabilidade de serem submetidos a exames de imagem de crânio em menos de 1 hora do que aqueles admitidos durante a tarde. O famoso tempo porta-agulha também variou bastante, sendo maior nos fins de semana e durante a noite.

Por fim, a publicação concluiu que o “efeito fim de semana” é uma simplificação e que a qualidade do cuidado deve ser melhorada no intuito de diminuir, principalmente, a variação temporal do acesso a ferramentas diagnósticas e terapêuticas ao longo da semana, e não apenas no fim de semana, mesmo que não tenha sido evidenciada variação na mortalidade entre os períodos.

Estudo britânico da Universidade de Birmingham, também publicado pela The Lancet, avaliou a disponibilidade de especialistas nas admissões de emergência em dois dias distintos, sendo um domingo e uma quarta-feira os dias da semana escolhidos. O estudo envolveu 115 hospitais de referência e mais de 15 mil especialistas.

Foi revelada diferença substancial na disponibilidade de especialistas entre o fim de semana (domingo) e o dia de semana (quarta) para avaliação de pacientes em admissão de emergência (11% disponíveis no domingo e 42% disponíveis na quarta). No entanto, o tempo médio de cuidado dedicado aos pacientes por especialistas no domingo foi 40% maior do que na quarta, o que aparenta compensar a menor disponibilidade de staff e melhorar a qualidade do atendimento. E, apesar desta diferença, mais uma vez não foi observada diferença na mortalidade no fim de semana.

Outro estudo britânico, publicado pela Journal of Health Services Research & Policy, apresenta resultados que corroboram outra tese: de que o aumento da mortalidade pelo “efeito fim de semana” ocorre apenas para os pacientes admitidos no fim de semana, e se deve a menor disponibilidade de atendimentos (por menor disponibilidade de leitos) e maior gravidade destes pacientes.

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A partir dos resultados destes estudos, é inegável admitir que há uma diferença na qualidade do cuidado hospitalar fora do horário comercial (incluindo aqui não só os fins de semana, como também os horários noturnos). No entanto, a qualidade no cuidado aparenta estar relacionada não há uma baixa qualificação do profissional disponível no fim de semana, ou a baixa disponibilidade de especialistas, e sim a uma menor disponibilidade de leitos e maior tempo de espera por atendimento por menor disponibilidade de serviços. A maior mortalidade foi definitivamente colocada em cheque, visto que apenas um dos estudos apontou diferença, e, ainda assim, atribui a mesma a gravidade dos casos admitidos fora do horário comercial.

Seria precipitado extrapolarmos os resultados destes estudos realizados nos Estados Unidos e na Inglaterra para a realidade brasileira, em que apenas uma minoria tem acesso a um sistema de saúde como o destes países. No Brasil, a baixa disponibilidade dos serviços não se restringe aos fins de semana, embora seja de fato intensificada no período, e a qualidade dos serviços de atendimento pré-hospitalar e até mesmo o nível educacional da população em identificar e se mobilizar para o atendimento de emergência podem apresentar impacto negativo nos desfechos. É certo que um olhar mais aprofundado sobre o tema é fundamental para a otimização dos serviços de saúde e da disponibilidade de recursos.

 

Referências Bibliográficas:

  • Bray, BD MD. Weekly variation in health-care quality by day and time of admission: a nationwide, registry-based, prospective cohort study of acute stroke care. The Lancet. Published Online: 10/05/2016.
  • Aldridge, C PhD. Weekend specialist intensity and admission mortality in acute hospital trusts in England: a cross-sectional study. The Lancet. Published Online: 10/05/2016.
  • Rachel Meacock. Higher mortality rates amongst emergency patients admitted to hospital at weekends reflect a lower probability of admission. J Health Serv Res Policy. Published Online: 06/05/2016.

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