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Tubos de exame e Ginástica Olímpica. Será que combinam?

Você está no plantão e, após o atendimento inicial, resolveu solicitar alguns exames de sangue. Na lista tem hemograma, bioquímica, HIV… abre a gaveta e se depara com diversos tubos, cada um de uma cor. E agora? Pega qualquer um? Você saberia dizer qual tubo de ensaio é apropriado para cada exame?

Quem faz/fez plantão em emergência sabe que a resolução do problema anda lado a lado com a velocidade do fluxo do atendimento. Muitas vezes, a demanda do serviço não permite esperar outro profissional para realizar a coleta do material para o exame.

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É nessas horas que você tem que estar preparado. Mas fica tranquilo, estamos aqui para te tirar do sufoco! Para isso, estivemos acompanhando, direto do complexo esportivo, a ginástica olímpica dos nossos queridos tubos de ensaio.

Com a pretensão de impressionar os jurados do laboratório central, os tubos (cada um representado por uma cor) apresentaram um espetáculo deslumbrante. Realizaram malabarismos digno de medalhas, anticoagulando amostras e mantendo tudo em um cenário ideal para análise. A disputa está acirrada!

O primeiro atleta entra em cena. O TUBO ROXO tem uma substância chamada ácido etilenodiamino tetra-acético, mas todos aqui o chamam pelo seu apelido, EDTA. Ele rouba o cálcio das amostras de sangue. “E o que o cálcio está fazendo aqui nessa história?” Simples: o cálcio tem uma participação importante em várias etapas da cascata de coagulação e, se eu tiro o cálcio, eu bloqueio a coagulação do sangue no frasco. Você vai usar esse tubo quando o principal destino do exame for o laboratório de hematologia, como contagem de plaquetas, tipagem sanguínea e hemograma. Ele deixa a morfologia das hemácias preservadas por muito mais tempo, o que facilita o estudo dessas células. Excelente apresentação do primeiro competidor!

Dando continuidade ao nosso torneio, aplaudido por todos os torcedores, o TUBO AZUL tem uma outra função: ele vai ser usado nos testes de coagulação. Tem, em seu interior, o citrato de sódio, que é um anticoagulante também. “Ué? Anticoagulante em teste de coagulação?”. Sim, mas esse é especial: ele também rouba o cálcio, mas isso consegue ser facilmente revertido no laboratório. “Ah, entendi! Quando chega no laboratório eu ‘resgato’ esse sequestro e consigo testar a coagulação”. Exatamente!

Mas, se o que você quer é uma gasometria, nada mais adequado que um tubo com heparina sódica. O TUBO VERDE acena para a plateia. É usado, além da gasometria, para testes bioquímicos, mas fique atento! Eu disse para você que o tubo contem heparina SÓDICA! Se você for dosar sódio usando esse tubo o resultado vai vir muito mais alto que o valor verdadeiro, porque terá muito sódio na amostra – tanto quanto a palavra “sódio” nesse parágrafo. Uma apresentação sensacional, mas não podemos deixar de dar crédito a seringa heparinizada que, embora não está na apresentação, é a mais usada para gasometria.

Nosso próximo competidor, o TUBO CINZA, tem uma missão muito específica. Seu objetivo é dosar glicose e lactato e, para isso, usa EDTA e fluoreto de sódio. “Caramba, esses tubos capricham no sódio”. Dessa vez, a função dele vai ser inibir a via glicolítica. Pense comigo: as hemácias também têm gasto de energia. Advinha o que elas vão utilizar para suprir essa necessidade…a glicose! Estamos falando de um exame para ver o nível de glicose e não podemos ter nada competindo com as amostras. O que esse tubo preparou é a inibição da via glicolítica – através do fluoreto de sódio – e, assim, a hemácia para de “roubar” nossa glicose. Você conseguiria imaginar por que usamos esse frasco pra dosar lactato?

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Perceba que o lactato é um elemento que surge na produção dessa energia que a hemácia tanto precisa. Quando inibimos essa produção, também deixamos de fazer lactato. “Perfeito! Sem concorrentes!” Isso mesmo, podemos dosar o lactato sem interferências.

Eu sei que você tem uma dúvida ainda. Porque o EDTA? O efeito anticoagulante do fluoreto de sódio é muito pequeno e, dessa forma, o material seria perdido. A inclusão do EDTA na coreografia desse tubo é fundamental pra eficiência de sua apresentação.

E por último, mas não menos importante, temos o TUBO VERMELHO e o TUBO AMARELO! Esses simpáticos competidores esbanjam simplicidade e digo isso por um motivo: eles não possuem anticoagulantes! “Mas qual a função de um tubo sem anticoagulante?” Eles são usados para exames sorológicos. Os anticoagulantes nesses exames poderiam interferir no resultado e nossos atletas querem o melhor desempenho possível. O que diferencia nossos dois ginastas é a presença de um gel separador. O tubo amarelo possui um gel separador para que, após a centrifugação, o soro menos denso fique acima do gel. Ambos os tubos são usados para obtenção de plasma e, além de exames sorológicos, podem ser usados para exames bioquímicos.

Mas se você não acompanhou toda a competição, dê uma olhadinha no painel olímpico com o resumo de tudo!

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Autor:

svbrunosiqueira

Referências bibliográficas:

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