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Não deixe o burnout derrubar você

Médicos podem passar por todo tipo de problemas, mas se você está sempre se sentindo sobrecarregado e desencorajado, você pode estar sofrendo com o burnout. O termo se refere à síndrome do esgotamento profissional, que afeta milhões de trabalhadores no mundo e, em especial, os médicos.

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Quais são os sinais de alerta?

A síndrome envolve vários sintomas que diferem dos da depressão, tédio ou infelicidade. O Maslach Burnout Inventory, uma medida líder de burnout, aponta três sinais:

  • Exaustão emocional: você não consegue se recuperar do stress durante o seu tempo livre;
  • Despersonalização: você se tornou negativo e cínico, está com problemas para se conectar com os pacientes e culpa constantemente os outros;
  • Sensação reduzida de realização: você perdeu a confiança em suas habilidades como médico e acredita que não é mais capaz de ajudar as pessoas.

Dr. Henrique Cal, neurologista e coordenador do BeepSaúde, explica que muito desses problemas acontecem pelas características naturais da profissão:

“O ritmo é muito acelerado, a gente sai de um trabalho para outro, não come direito. Fora que a nossa ambição profissional faz com que a gente assuma compromissos e responsabilidades e, às vezes, nos cobramos em excesso”.

Conciliar as horas de trabalho com o estudo também levam a uma exaustão:

“O bom médico quer estar sempre atualizado. E como o conhecimento é crescente, isso também é um fator de estresse, porque percebemos que não estar up-to-date de absolutamente todas as novidades não é compatível com o nosso tempo”, esclarece.

“O burnout tem dois grandes fundos: um é a característica da profissão médica; e o outro é uma questão pessoal ou cultural também, porque tem a ver com identificar algumas características pessoais e limitações e respeitar esses limites”.

Qual é a solução?

Em um dos mais recentes estudos sobre o burnout, pesquisadores americanos explicaram que lidar com a síndrome envolve encontrar um equilíbrio entre a energia que você gasta no trabalho e sua capacidade de recarga.

Não há uma solução simples, já que cada técnica funciona de forma diferente de pessoa para pessoa. O ideal é encontrar o que funciona para você e trabalhar com isso.

Ainda sim, algumas técnicas comuns podem ser destacadas, como por exemplo o mindfulness (consciência plena, em tradução livre). A técnica consiste em tratar experiências livre de julgamentos, por estar ciente de seus próprios sentimentos e os de outras pessoas. Isso requer que você desenvolva suas próprias percepções sobre as situações, através de um conjunto de práticas, como técnicas de respiração e meditação.

Em um estudo feito em 2009, um grupo de médicos participou de um curso de mindfulness que incluiu meditação, exercícios de auto-conhecimento, narrativas sobre experiências clínicas significativas e entrevistas apreciativas, uma técnica usada para desenhar o que é importante para as pessoas e como elas podem colocar esse conhecimento para trabalhar de uma forma positiva. O grupo mostrou reduções significativas no burnout.

Não ignore suas necessidades

“O primeiro grande problema para o médico lidar com esse tema é que ele não se identifica naquele contexto”, explica Dr. Henrique.

“O que acontece é o seguinte: se a gente está fora de forma, isso salta aos olhos logo, e aí é muito fácil pensar ‘tenho que me cuidar, fazer uma dieta, ir pra academia’, porque isso é evidente. O problema é o que não fica evidente: as questões psicológicas. Os médicos começam a culpar algumas estafas, impaciências, modos de reagir a fatores externos. Ele acha que agiu assim porque o paciente é chato, porque estava com pressa. O médico nunca identifica que está passando por uma reação. Então, temos que ser mais sensível e se autoexaminar para perceber ‘estou reagindo diferente, minha energia está diferente’, porque muitas vezes sempre achamos que isso não vai acontecer com a gente”.

Como falamos acima, é preciso que haja equilíbrio entre trabalho/vida e bem-estar. Os médicos precisam cuidar de seus corpos físicos, com bons hábitos alimentares e uma rotina saudável de sono.

Uma das atitudes que leva ao burnout é colocar o paciente sempre em primeiro lugar, mesmo quando você está exausto. Lembre-se que para atender seus pacientes, você precisa cuidar de suas necessidades.

“Muitas vezes a gente associa erroneamente a ideia de se colocar limites com apoucamento, com competência. Isso está errado. A gente pode exigir-se além do máximo durante um período, durante uma circunstância, mas fazer isso de maneira constante começa a gerar sintoma”, explica Dr. Henrique.

Para diminuir o risco de sucumbir ao burnout, estudiosos recomendam fazer uma distinção clara entre sua vida profissional e pessoal. Por exemplo, com a evolução tecnológica, ficou muito mais fácil rever documentos em casa e até fazer consultas à distância. Os médicos devem lutar contra o impulso de fazer isso. O mesmo deve acontecer inversamente; médicos não devem levar seus problemas pessoais para o trabalho.

“Compreender a situação de um paciente, ter calma e discernimento para fazer um diagnóstico, ter um julgamento clínico e mesmo demonstrar paciência, são habilidades profissionais. Isso não é um plus, faz parte da profissão”, lembra Dr. Henrique.

Como é muito fácil que as necessidades pessoais não programadas caiam no esquecimento, é importante programá-las em seu calendário, como qualquer outro compromisso. Pesquisadores aconselham a criação de um “calendário de vida”, para marcar encontros, happy hours e outros eventos pessoais.

Veja também: 6 dicas para melhorar sua qualidade de vida

Mude!

A maioria das causas de burnout tem a ver com problemas no trabalho. Veja alguns exemplos de como tornar o ambiente profissional mais agradável:

  • Atribua mais responsabilidades para quem não é médico: outros profissionais podem ajudar a reduzir significativamente a sua carga de trabalho. Por exemplo, enfermeiros ou assistentes podem ficar responsáveis por rever toda a informação eletrônico e em papel, passando para o médico apenas o que exige a sua atenção.
  • Faça reuniões de equipe: reserve um tempo para rever o que aconteceu na semana anterior. O que funcionou bem? O que não funcionou? Que mudanças precisam ser feitas? Isso é mais eficiente do que o tratar cada problema separadamente.
  • Otimize seu fluxo de trabalho: otimize tarefas recorrentes, como registro de pacientes, prescrições e resultado de exame. Isso pode melhorar a eficiência e reduzir o desperdício.

Encontre sua paz interior

Embora as circunstâncias no trabalho sejam um fator importante na neutralização, é mais fácil mudar sua própria situação pessoal.

Meditação e Yoga são as atividades mais indicadas para encontrar um equilíbrio mental e sua paz interior, pois envolvem modular a sua respiração, com foco no presente e colocar para fora questões pessoais. Os exercícios de respiração baixam a pressão arterial, o que tem um efeito calmante.

Encontre uma paixão fora da medicina

Descubra um hobby que não tenha nenhuma relação com a medicina, mas também desperte sua paixão e reabasteça sua “conta bancária emocional” fora do trabalho.

Como sair dessa?

“Primeiro, é preciso identificar o problema”, conta Dr. Henrique. “Talvez consultar um especialista, porque alguns sintomas de burnout podem se confundir com sintomas de depressão.”

O próximo passo é estabelecer metas:

“‘Eu vou pegar apenas mais um plantão extra (e não vários)’, ‘não vou ficar virando a noite sempre que tenha que preparar uma apresentação – vou me programar, colocando metas para preparar esse trabalho’. É importante também estabelecer relações estáveis com amigos, conjugues e família. Estabeleça também horários de estudo. Se você sempre estiver com aquelas pendências ‘tenho que rever esse tema’, você se sentirá frustrado, porque estará com uma ferramenta de trabalho a menos. Então, o ideal é ter um turno da semana para estudar e revisar assuntos esquecidos (e que ele seja intocável)”.

Dr. Henrique lembra também que todas as decisões, seja de diminuir o ritmo ou cortar dias de trabalho, devem ser feitas de maneira consciente e não por causa do esgotamento mental.

“Outra dica que eu daria é um livro que me ajudou muito, chamado ‘Aprender a descansar’, de Fernando Sarráis. É um livro pequeno, que conta a história do autor, um psiquiatra, e sua experiência acumulada ao longo de anos atendendo pacientes com burnout. Ele dá uma visão muito valiosa para compreender esse fenômeno. Tem dicas maravilhosas que mudaram a maneira como eu via meu ritmo de trabalho”, conta Dr. Henrique.

Por último, Dr. Henrique aconselha a não ver esses cuidados como um escape:

“‘Vou ter um hobby porque eu preciso esquecer um pouco da medicina’, ‘tenho que sair um pouco porque se não eu vou explodir’. Não pode ser uma luta do negativo, tem que ser uma luta do positivo. É essencial cultivar todas essas outras atividades, mas não porque vai dar um problema, e sim porque são importantes mesmo”, explica Dr. Henrique.

O médico também faz um alerta:

“Para uma pessoa se realizar, ela precisa trabalhar cinco grandes áreas: a profissional; a vida familiar estável; a própria saúde física; a dimensão da espiritualidade, que significa ver o sentido que as coisas tem para ela; e a questão cultural, social e de relação com amigos e pessoas. Quem não cuida desses pontos não vai se realizar, independente do burnout ou não. E eles servem como uma grande prevenção do burnout também. Lembrando que é nessa fase de vida, com esse ritmo frenético, que surgem tendências de compensações e vícios”.

Dr. Henrique lembra que o médico não deve se sentir inferior, por conta dessas mudanças:

“Não é questão de se apoucar, de não ter capacidade. É de entender que o descanso é um dever, para que a pessoa possa trabalhar melhor. É uma ferramenta para que ela possa render mais no trabalho depois”.

E completa, lembrando os principais pontos: “saber que a gente tem limites e respeitar esses limites, colocar metas, focar no positivo e cultivar esses outros hábitos da vida extraprofissional”.

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Referências:

  • Leigh Page. Is Burnout Crushing Your Spirit? Here’s Help. Medscape. Aug 10, 2016.

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