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O desafio #1 da medicina no século XXI

Há algum tempo, nesta minha jovem carreira médica, desenvolvi uma percepção em acreditar que a complexidade no tratamento dos seres humanos estava distante da habitual sequência diagnosticar, tratar (cura, qualidade ou sobrevida), acompanhar e prevenir.

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Acreditava que o papel do médico como integrante ativo do sistema de saúde, estava além desses quatro pilares descritos acima, e que deveria, por que não, pensar na multicomplexidade que envolve o sistema de saúde que o cerca. Seja na esfera pública ou privada, no consultório, no pré ou intra hospitalar, é inegável a capacidade dos profissionais de saúde em serem influenciadores para que o sistema pudesse evoluir, para que os resultados fossem ainda melhores para todos.

No século XX, a medicina evoluiu de maneira fantástica, a expectativa de vida populacional nunca cresceu tanto em tão pouco tempo, saltamos de 30 anos para 65 anos, descobrimos os antibióticos, exames diagnósticos evoluíram assombrosamente, fizemos transplante de órgãos e inúmeras vacinas. Uma explosão de conhecimento e avanço científico. Mas, o que faremos no século XXI?

A resposta natural para isto seria simples como: evoluir em conhecimento científico para aumentarmos a sobrevida, curar doenças “incuráveis” e permitir maior qualidade de vida. Junte uma turma de amigos médicos e faça a pergunta: Qual o maior desafio da medicina no séc. XXI? E a respostas não estará muito distante do descrito acima, incluindo: nanotecnologia, terapia genética, órgãos artificiais, etc.

Veja também: ‘Pesquisa realizada pela PEBMED mostra realidade da área médica no Brasil’

Porém, este é o vício que enfrentamos quando não olhamos além dos quatro pilares. Não que evoluir com a medicina a passos largos em direção ao extensão da vida não seja importante, ao contrário, é muito importante. Entretanto, estamos deixando de lado um aspecto fundamental para que isso possa ocorrer de maneira saudável: CUSTO.

Sim, este é o maior desafio da medicina, por que esse limita todos os outros, torna sistemas de saúde insustentáveis, gera crises em nações e, acima de tudo, afasta de grande parte da população dos melhores diagnósticos e tratamentos.

Quando pensamos em custos do sistema de saúde, estamos falando de muito dinheiro. Se pensarmos no modelo americano, estamos falando em quase 3 trilhões de dólares por ano, isso representa aproximadamente 20% do PIB norte americano e a previsão é que esta fatia não pare de aumentar, alcançando 37% do PIB até 2050. Desde a década de 60, o custo do sistema de saúde nos EUA cresceu mais de 800%, em comparação, o PIB e a média salarial cresceram no mesmo período 168% e 16%, respectivamente.

E mais: ‘Quais são as características de um ‘bom médico’?’

E você deve estar pensando: “Mas, o EUA são o país que mais gastam em tudo”. Você tem razão, eles são o país que mais gastam em tudo e o mais rico também, entretanto o peso dos gastos não esta caindo apenas no sistema americano, aonde Medicare e Medicaid sofrem e ameaçam ir a falência.

Recentemente, o famoso e universal sistema de saúde inglês, o NHS, iniciou um plano de contenção de gastos para economizar 22 bilhões de dólares até 2020, e tomou medidas que envolvem maior rigor para escolha de tratamentos e aumento da carga de trabalho de médicos residente. No Brasil, o cenário também não é diferente, o setor privado estima triplicar seus gastos nos próximos 15 anos. O desafio de tornar a medicina mais sustentável passa diretamente por reduzir os custos.

Quem são os vilões deste cenário?

 Os gastos desenfreados em saúde estão relacionados a alguns fatores conhecidos e discutidos dia após dia em todo o mundo. Estes incluem:

  • Envelhecimento populacional e aumento da prevalência em doenças crônicas: uma causa direta da evolução médica e do aumento da sobrevida que impõem uma carga de gastos cada vez maior com doenças que necessitam de tratamento contínuo. Quase metade da população adulta brasileira possui uma doença crônica. Isto sem contar os que ainda não foram diagnosticados;
  • Percepções inadequadas de “medicina sem custos”: profissionais de saúde e pacientes não percebem o valor pago por cada exame, consulta ou consumo desnecessário;
  • Fraudes: uma causa amplamente perseguida, principalmente pelo modelo privado e que, infelizmente, em modelos públicos desorganizados pode passar desapercebida;
  • Evolução tecnológica: estima-se que novas tecnologias ou aumento no uso de tecnologias seja responsável por 40-50% do aumento nos custos anualmente, controlar como optamos pelo uso desta tecnologia é parte fundamental do controle dos custos;
  • Desperdício e ineficiência do sistema: acredita-se hoje que quase 30% do gastos no sistema de saúde sejam relacionados a estes dois fatores.

Olhar para custo e definir prioridades nos serviços médicos que trabalhamos irá impactar diretamente nos resultados do sistema de saúde. Pode parecer muito pequeno ou distante, porém esta é uma tarefa tão importante de se aplicar quanto conscientizar outros profissionais e pacientes.

Referências:
1. Iuga AO, McGuire MJ. Adherence and health care costs. Risk Management and Healthcare Policy. 2014;7:35-44. doi:10.2147/RMHP.S19801.
2.  Liaropoulos L, Goranitis I. Health care financing and the sustainability of health systems. International Journal for Equity in Health. 2015;14:80. doi:10.1186/s12939-015-0208-5.
3. The NHS cannot escape its financial crisis without more money – Richard Vize – The Guardian 13/05/2016

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