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O quanto a qualidade do sono influencia no funcionamento do cérebro?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Você sabe o quanto a qualidade do nosso sono pode influenciar no funcionamento do nosso cérebro? Foi a pergunta que pesquisadores de Departamentos de Psiquiatria e Neuropsiquiatria sul-coreanos fizeram em um artigo aprovado neste ano de 2018 no Annals of Neurology, sob título: “Sleep and Cognitive Decline: A Prospective Non-demented Elderly Cohort Study”. Eles estavam em busca de respostas ainda não bem esclarecidas com relação à questão da qualidade de sono e o desenvolvimento de transtorno cognitivo em idosos.

Algumas afirmações eram vagas, mesmo que muitas vezes realizadas a partir de metanálises, porém ainda era necessário um estudo prospectivo que avaliasse um grande grupo de indivíduos para entender melhor a relação causal das associações e a influência dos testes cognitivos utilizados para a avaliação dos indivíduos em estudo, visto que, muitas vezes eram pouco sensíveis para identificar pessoas com cognição normal (CN) ou com declínio cognitivo leve (DCL).

Foram então avaliados, de forma individualizada, os parâmetros relacionados ao sono e as alterações na função cognitiva num seguimento de quatro anos de idosos acima de 60 anos com NC ou DCL, de uma amostra randomizada de comunidade de 30 vilas e cidades de 13 distritos sul-coreanos, sendo estes os parâmetros avaliados: hora média de sono, duração do sono, latência do sono, qualidade do sono, eficiência do sono e disfunção diurna.

Dos 4.296 indivíduos randomizados, completaram os quatro anos de seguimento 2.893. Foram excluídos transtornos psiquiátricos graves, realizadas triagem laboratorial, sorológica e pesquisa de apolipoproteína E, para reduzir os vieses do estudo.

Para definição de “Tempo de sono médio”, foi verificado que este ocorria, em média, entre 01:00h e 03:00h, e como “Duração média de sono” de 05h 03m a 07h 57min, baseado na média de sono culturalmente reconhecida na Coréia. Se o valor de tempo de sono médio estivesse abaixo do referido, o indivíduo era considerado “Dormidor precoce”. Se estivesse acima, “Dormidor tardio”. Caso a duração do sono estivesse abaixo do padrão era chamado de “Dormidor curto” e se acima, “Dormidor longo” (tradução livre).

Foram também avaliados os seguintes dados de base (paciente no início da avaliação) com intenção de controle de vieses: idade, sexo, anos de educação, presença de apolipoproteína E-alelo ε4, Escala de Depressão Geriátrica (GDS), Escala de Doenças cumulativas – Cumulative Illness Rating Scale (CIRS), nível socioeconômico, status empregatício, presença de co-habitantes, grau de tabagismo e etilismo, atividade física, Questionário de Screening para Distúrbio do sono REM e Avaliação de Apneia do Sono.

Os resultados foram:

Os participantes com Cognição normal (CN) demonstraram após quatro anos que os que apresentavam:

  • Longa duração de sono: 70% maior chance de declínio cognitivo, do que os participantes com duração média.
  • Longa latência de sono: 40% maior chance de declínio cognitivo, do que os com latência curta.
  • Tempo de Sono médio tardio: 40% menor chance de declínio cognitivo, comparado com o padrão (entre 01:00h e 03:00h)

Dos participantes com Declínio cognitivo leve (DCL) de base, após quatro anos, aqueles com:

  • Latência de sono longa: 30% menos chance de reverter o quadro para cognição normal, que os com Latência curta.
  • Duração de sono e Tempo de sono médio de base não estavam associados com alterações cognitivas no seguimento.

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Outros dados interessantes:

– Latência de sono longa no grupo com DCL de base também não aumentou a incidência de demência. O que se cogitou é que talvez este não seja um fator de risco, mas sim um sinal precoce de acometimento por demência nos pacientes com DCL, visto que se sabe que o acúmulo de Beta-amiloide e de citocinas inflamatórias estão associadas a transtornos do sono em estudos prévios, podendo ser, na verdade, a causa das alterações encontradas.

– Já no grupo com CN, a longa duração do sono aumentou o risco de incidência de declínio cognitivo em 1,7 vezes.

Este trabalho concluiu que:

– A latência de sono longa pode ser utilizada como marcador precoce de Declínio cognitivo para idosos com CN e DCL.

– Duração de sono aumentada e Sono médio relativamente precoce podem ser usados como marcadores apenas para idosos com cognição normal.

LEIA MAIS: Avaliação e manejo do déficit cognitivo em idosos

Autora:

Nathalia Barros Ferreira

Médica Residente de Neurologia – Universidade do Estado do Pará (UEPA) ⦁ Mestranda em Saúde na Amazônia – Núcleo de Medicina Tropical / Universidade Federal do Pará (NMT-UFPA) ⦁ Graduada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) ⦁ Membro da American Academy of Neurology (AAN) ⦁ Membro Aspirante da Academia Brasileira de Neurologia

Referências:

  • Seung Wan Suh, MD et al, Sleep and Cognitive Decline: A Prospective Non-demented Elderly Cohort Study. Annals of Neurology, 2018

Um comentário

  1. Excelente artigo! É um assunto sobre o qual temos muito que aprender/desvendar. Gostaria de saber mais sobre sono polifásico; algum estudo em andamento sobre o assunto?
    Parabéns pelo trabalho!

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