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Reposição de vitaminas: vale a pena para prevenir infarto e AVC?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Não é segredo que padrões dietéticos modulam aspectos do processo aterosclerótico como níveis lipídicos no plasma, resistência a insulina e metabolismo glicídico. Consequentemente, o padrão alimentar pode interferir na chance de eventos cardiovasculares. Um exemplo clássico disto diz respeito ao consumo de gordura saturada e trans, relacionados com elevação do LDL-colesterol e aumento de risco cardiovascular (CV). A substituição de gordura saturada da dieta por mono e poli-insaturada é considerada uma estratégia para o melhor controle das dislipidemias e consequente redução da chance de eventos clínicos como infarto agudo do miocárdio (IAM) e acidente vascular cerebral (AVC).

Entretanto, em um outro grupo dietético, a reposição de polivitaminas e minerais (MVM) nunca se comprovou de forma consensual a associação com redução de risco CV. Apesar dos estudos demonstrarem resultados neutros em sua grande maioria, estima-se que cerca de 70% da população de idosos nos Estados Unidos (EUA) consuma pelo menos um tipo de vitamina, em um mercado que movimentou cerca de 21 bilhões de dólares em 20151,2.

ecentemente, Kim e cols. publicaram metanálise com mais de 2.000.000 de pacientes avaliando a reposição de complexo polivitamínico (> 3 vitaminas e minerais) e sua associação com eventos cardiovasculares. Foram pesquisados os bancos de dados do Medline, Embase e Cochrane para estudos publicados entre Janeiro/1970 e Agosto/2016, sendo incluídos apenas ensaios clínicos randomizados (ECR) e estudos de coorte prospectivos num total de 18 publicações (11 dos EUA, 4 europeus e 3 do Japão). Aqueles estudos cuja suplementação incluía ervas, hormônios e/ou drogas foram excluídos da presente análise e em dez estudos foi observado ajuste para relato de ingestão de frutas e vegetais como variáveis categóricas.

De forma geral não se observou associação entre reposição MVM e mortalidade cardiovascular (risco relativo [RR],1.00; intervalo de confiança 95% [CI], 0.97–1.04), mortalidade por doença arterial coronariana – DAC (RR, 1.02;95% CI, 0.92–1.13), morte por AVC (RR, 0.95; 95% CI, 0.82–1.09), ou incidência de AVC (RR, 0.98; 95% CI, 0.91–1.05), mesmo quando ajustado para análise de subgrupos pré-definidos. Em contrapartida, a reposição de MVM parece ter se associado a uma menor incidência de DAC (RR, 0.88; 95% CI, 0.79–0.97), porém este resultado só foi observado nos estudos de coorte, não sendo replicado nos ECR (RR, 0.97; 95% CI,0.80–1.19). Havia heterogeneidade significativa entre os estudos de coorte (I 2 =67.5%), que por sua vez não foi observada nos ECR (I 2 =0.0%). A maior parte dos ECR testaram uma dose uniforme de ingredientes de MVM, porém nos estudos de coorte esta dose não foi pré-especificada³.

Apesar de estudos de nutrição já terem demonstrado que frutas e vegetais representam uma grande fonte de vitaminas e seu uso está associado com efeito cardioprotetor, a reposição de suplementos MVM não se associou com efeito protetor, independente do status nutricional prévio dos pacientes.

Um dos grandes benefícios das metanálises se deve ao fato de avaliar evidências combinadas de estudos previamente publicados, assim evitando conclusões erradas de número reduzido de estudos como erros tipo 1 ao se interpretar de forma incorreta os seus resultados.

Importante ressaltar limitações deste estudo como a não padronização dos suplementos MVM utilizados nas diferentes publicações (apenas cinco destes relataram a dose e o tipo de suplementação). A maior parte dos trabalhos avaliou o uso de MVM por meio de questionários, não sendo possível estratificar dose, frequência e aderência adequada por parte dos pacientes.

Apesar das limitações explicitadas, estes resultados trazem maior peso para a evidência de que reposição polivitamínica, que de forma geral apresenta custo elevado, possui efeito nulo sobre doença cardiovascular nos seus mais diferentes aspectos e apresentação, reforçando ainda mais aquilo que os consensos de nutrição já preconizam.

LEIA MAIS: Suplementos alimentares – podemos confiar nos rótulos?

Autor:

Felipe Maia

Médico cardiologista no Hospital Universitário Pedro Ernesto e Rede D’or São Luiz ⦁ Mestrando em Ciências Médicas pela UERJ ⦁ Residência em Cardiologia e Hemodinâmica pelo Instituto Dante Pazzanese ⦁ Residência em Clínica Médica pela UFRJ ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Gama Filho

Referências:

  1. Kantor ED, Rehm CD, Du M, White E, Giovannucci EL. Trends in dietary supplement use among US adults from 1999–2012. JAMA. 2016;316:1464–1474.
  2. Scott C. Americans are wasting billions of dollars every year on health supplements that don’t even work. Business Insider. 2015. http://www. businessinsider.com/money-wasted-on-health-supplements-2015-3.
  3. Kim J, Choi J, Kwon SY, et al. Association of multivitamin and mineral supplementation and risk of cardiovascular disease: a systematic review and meta-analysis. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2018;11:e004224.
  4. He FJ, Nowson CA, MacGregor GA. Fruit and vegetable consumption and stroke: meta-analysis of cohort studies. Lancet. 2006;367:320–326. doi: 10.1016/S0140-6736(06)68069-0.

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