Página Principal > Colunistas > Tratamento da migrânea na gravidez e lactação: o que precisamos saber
enxaqueca

Tratamento da migrânea na gravidez e lactação: o que precisamos saber

Tempo de leitura: 4 minutos.

A migrânea não é a cefaleia mais frequente, mas certamente é uma das que mais causa impactos negativos. Como a maioria das cefaleias primárias, a enxaqueca apresenta uma prevalência maior no sexo feminino, especialmente entre as jovens. É bem conhecida a relação entre a migrânea e as alterações hormonais femininas: menarca, catamênios, climatério, gravidez e lactação.

A gravidez e a lactação são dois delicados períodos da vida da mulher com cefaleia. Além de impactarem na manifestação da doença (por vezes melhorando), acabam alterando também a forma de abordagem diagnóstica e terapêutica.

Aproximadamente metade das gestantes pode experimentar melhora nos primeiros estágios da gravidez; essa proporção aumenta para 75% nos estágios mais avançados da gestação – a melhora é maior em pacientes com migrânea sem aura. O primeiro trimestre é o período mais crítico entre as migranosas (pode ser observada piora e aumento na freqüência das crises).

Os principais gatilhos para cefaleia são: estresse (físico e/ou mental), jejum/irregularidade na alimentação, excesso ou abstinência de cafeína, desidratação, alterações do sono (privação ou excesso) e sedentarismo/excesso de atividade física. No caso de gestantes, é sempre importante ficar atento para o diagnóstico diferencial de pré-eclâmpsia.

Não é raro depararmo-nos com gestantes queixando-se de cefaleia nos nossos atendimentos de urgência ou nos ambulatórios. Temos uma paciente diferenciada, com estado emocional delicado, exames físico e neurológico peculiares, fatores de risco específicos para seu estado e, principalmente, com restrições quanto às opções de tratamento.

Neste artigo, uma compilação de duas importantes publicações (vide referências), tentamos expor de forma didática e objetiva o tratamento medicamentoso (na crise e na profilaxia) da migrânea na gestante.

TRATAMENTOS DA MIGRÂNEA NA GESTANTE

Pacientes com dores crônicas apresentam maior risco e descontrole de depressão, ansiedade, insônia e hipertensão. O tratamento das cefaleias no período gestacional, além de melhorar a qualidade de vida da gestante, oferece impacto positivo na sua saúde geral e leva a uma gestação mais saudável.

OPÇÕES DE TRATAMENTO

Tratamentos não-farmacológicos

Os tratamentos não farmacológicos devem sempre ser incentivados. É importante que a mulher observe e identifique seus principais gatilhos para crises de enxaqueca. Hábitos saudáveis devem ser estimulados:

  • Boa alimentação – alimentos saudáveis e refeições em horários regulares;
  • Diminuir a ingestão de cafeína e seus derivados;
  • Manter-se hidratada;
  • Evitar bebidas alcoólicas, tabaco e alimentos que desencadeiem crises;
  • Boa rotina de sono;
  • Atividades físicas regulares;

Outras opções devem ser consideradas: técnicas de relaxamento, biofeedback, terapia cognitivo-comportamental. São opções seguras no período da gravidez e com resultados consistentes, comparáveis ao tratamento farmacológico. Aconselha-se o início do tratamento antes mesmo do início da gravidez, ainda na fase de planejamento.

Tratamentos farmacológicos

Apesar de importante, seguro e de apresentar bons resultados, por vezes os tratamentos não-farmacológicos não são suficientes isoladamente. Os tratamentos medicamentosos devem, sempre que possível, ser evitados ou adiados.

Na maioria das grávidas migranosas, as crises são mais frequentes no primeiro trimestre, observando-se grande melhora após o terceiro mês. Ocorre, contudo, que algumas pacientes não seguem esse padrão e mantêm-se com crises frequentes. Nesses casos, devemos considerar tratamentos farmacológicos, considerando sempre o risco x benefício e o impacto de cada opção de droga no desenvolvimento do feto (que varia conforme período da gestação).

Quanto ao uso da gestação, as drogas podem ser categorizadas conforme a tabela abaixo:

medicamentos para enxaqueca
Adaptado de: Briggs (2002)

 

PRINCIPAIS DROGAS USADAS NAS CRISES DE MIGRÂNEA

CATEGORIA DE RISCO NA GRAVIDEZ (PELA FDA)

CATEGORIA DE RISCO NA LACTAÇÃO (PELA FDA)

Acetaminofeno

B

Riso mínimo

Ácido acetilsalicílico

C / D no 3º trimestre

Risco

Ibuprofeno

C/D (após 30 semanas)

Risco mínimo

Naproxeno

B / D no 3º trimestre

Benefício que provavelmente supera o risco

Clorpromazina

C

Risco mínimo

Metoclopramida

B

Risco mínimo

Ergotamínicos

X

Contraindicados

Opioides (morfina, tramadol etc)

C

Benefício que provavelmente supera o risco

Triptanos (sumatriptana, naratriptana…)

C

Eletriptana: Benefício que provavelmente supera o risco

Sumatriptana: risco mínimo

Outros: Dados insuficientes

Prednisona e prednisolona

C

*Adaptado de Continuum (Minneap Minn) 2014;20(1):128–147

 

PRINCIPAIS DROGAS USADAS NA PROFILAXIA DA MIGRÂNEA

CATEGORIA DE RISCO NA GRAVIDEZ (PELA FDA)

CATEGORIA DE RISCO NA LACTAÇÃO (PELA FDA)

Inibidores da enzima conversora da angiotensina (Lisinopril)

D / C no 1º trimestre

Dados insuficientes

Bloqueadores da angiotensina – Candesartana

D / C no 1º trimestre

Dados insuficientes

Gabapentina C Benefício que provavelmente supera o risco

Topiramato

D

Benefício que provavelmente supera o risco

Ácido valproico

X

Benefício que provavelmente supera o risco

Betabloqueadores:

– Atenolol

– Metoprolol

– Nadolol

– Propranololo

– Timolol

D

C

C

C

C

Risco

Benefício que provavelmente supera o risco

Risco


Risco mínimo

Risco

Bloqueadores de canais de cálcio:

– Nifedipino

– Verapamil

C

Risco mínimo

Citalopram

Escitalopram

C

C

Risco

Benefício que provavelmente supera o risco

Fluoxetina

C

Risco

Venlafaxina

C

Benefício que provavelmente supera o risco

Sertralina

C

Benefício que provavelmente supera o risco

Amitriptilina / nortriptilina

C

Benefício que provavelmente supera o risco

Toxina botulínica

C

Dados insuficientes

Lítio

D

Contraindicado

*Adaptado de Continuum (Minneap Minn) 2014;20(1):128–147

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autor:

Raimundo Feitosa Neto

Medico pela Universidade Federal do Piauí – UFPI ⦁ Neurologista pela Universidade Estadual Paulista – UNESP

Referências:

  • Continuum (Minneap Minn) 2014;20(1):128–147
  • Curr Neurol Neurosci Rep (2016) 16:40

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.