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Doença de von Willebrand: triagem em meninas com sangramento menstrual intenso

Tempo de leitura: 3 minutos.

Sangramento menstrual intenso é uma queixa comum em adolescentes e pode causar diminuição da qualidade de vida, anemia por deficiência de ferro, necessidade de hospitalização e até hemotransfusões em casos graves. Até 20% das jovens podem ter um distúrbio hemorrágico subjacente, sendo que muitos desses casos são sub-reconhecidos e subtratados.

A Doença de von Willebrand, definida como uma deficiência qualitativa do fator de von Willebrand, é o distúrbio hemorrágico mais comum em mulheres, com uma prevalência estimada de 1,6 milhões nos Estados Unidos e o sangramento menstrual intenso é o sintoma mais comum ocorrendo em até 93% dos pacientes.

O diagnóstico precoce permite estratégias adicionais de tratamento para sangramento menstrual intenso e profilaxia para hemorragias durante futuros procedimentos cirúrgicos ou parto.

Em 2001, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) publicou a recomendação para rastrear adolescentes com menorragia por doença de von Willebrand. Em parecer posterior refinou-se esta recomendação, aconselhando triagem para distúrbios hemorrágicos em adolescentes com sangramento menstrual intenso em que apresentasse um ou mais dos seguintes sintomas: menstruação maior que 7 dias, anemia, história familiar de distúrbio de sangramento e história de sangramento após procedimentos como extração dentária, cirurgia e parto.

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Diante disso, foi publicado na revista OBSTETRICS & GYNECOLOGY em 2018 o artigo “Patterns of vonWillebrand Disease Screening in Girls and Adolescents With Heavy Menstrual Bleeding”, cujo objetivo foi estimar a frequência da doença de von Willebrand e rastrear fatores que afetam a triagem em uma amostra de meninas e adolescentes de 10 a 17 anos dos EUA com sangramento menstrual intenso.

Para isso, utilizou-se informações da base de dados Truven Health MarketScan e realizou-se um coorte retrospectivo entre 2011 e 2013. Identificou-se que de 27.888 meninas e adolescentes pós-púberes (10–17 anos) com diagnóstico de sangramento menstrual intenso, 8% apenas foram selecionadas para a doença de von Willebrand. Como o ACOG não fornecia uma definição precisa para sangramento menstrual intenso, adotou-se no estudo os seguintes critérios: internação por sangramento menstrual associado a diagnóstico de anemia ferropriva ou evidência de hemotransfusão.

Entre os pacientes que preencheram esses critérios, a taxa de rastreamento foi modestamente melhor (16% foram rastreados para a doença de von Willebrand). Esse estudo demonstra que, apesar das recomendações publicadas, rastreamento da doença de von Willebrand foi raramente realizada como parte da avaliação pós-puberdade de meninas e adolescentes com sangramento menstrual intenso nos Estados Unidos.

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Reconhecimento precoce da doença pode ajudar a prevenir sangramentos subsequentes e até a histerectomias desnecessárias. As múltiplas outras causas de menstruação intensa pode ser uma barreira para o diagnóstico de von Willebrand. Sangramento uterino por anovulação e sangramento disfuncional é comumente visto em adolescentes, estes diagnósticos podem desencorajar os médicos a triar um distúrbio de sangramento, se ele ou ela faz a suposição de que esses diagnósticos são a causa de sangramento menstrual intenso.

Há limitações importantes nesse estudo como o desenho do estudo, a não contabilização da etnia, da história familiar de distúrbios hemorrágicos, uso de medicamentos, porque esses dados não estavam disponíveis no banco de dados. Pontos fortes desse banco de dados incluem uma grande e diversificada amostra representativa da população dos EUA.

Apesar das recomendações do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas há mais de 15 anos, menos de 20% das mulheres pós-púberes, meninas e adolescentes, com sangramento menstrual intenso foi submetido a triagem para doença de von Willebrand no coorte. Maior conscientização do clínico e adesão as recomendações de triagem podem aumentar o diagnóstico da doença de von Willebrand.

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Autor:

Zolder Marinho Silva

Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro ⦁ Mestrado em HIV/AIDS e Hepatites virais pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro ⦁ Cursando Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Governador Israel Pinheiro – IPSEMG ⦁ Graduação em Farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Referências:

  • Jacobson. Von Willebrand Disease Screening in Females With Menorrha- gia. Obstet Gynecol 2018. (Obstet Gynecol 2018;0:1–9). DOI: 10.1097/AOG.0000000000002620

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